Opinião de Leitura
Nove Contos Nove Contos

Autor: Salinger, J. D.

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

Uma colectânia que representa o que de melhor escreveu Salinger, autor de «The Catcher in the Rye» (o seu único romance), em termos de contos. Caracterizados por uma escrita irrepreensível e superior, proporcionando uma leitura extremamente agradável e descontraída pelo excelente domínio da arte de cativação do leitor e dos tempos de descrição de cenários, caracterização dos personagens, aspectos psicológicos, e diálogos, estes contos têm tanto de originalidade irreverente num estilo de linguagem muito própria e talvez um pouco agressiva, como de encantadores e comoventes, surpreendendo e deslumbrando em cada final, todos de carácter distinto mas reveladores da simplicidade de resolução dos destinos humanos, ao fim de uma complexa teia de pensamentos e acontecimentos (temporais ou momentâneos) que iludem cada um dos personagens principais dos contos.

Pela sua variedade, impõem-se algumas notas adicionais sobre cada conto:

Um Dia Ideal para o Peixe-Banana
Muriel está numa estância de férias mais o controverso namorado, contestado pelos seus pais devido a actos muitos ortodoxos que continuamente pratica. Enquanto Muriel está ao telefone com a mãe, ouvindo todo o tipo de críticas a Seymour, este, que se encontra na praia, protagoniza um episódio tocante com uma menina pequena, Sybil, a propósito da existência dos Peixes-Banana. Devido a este, ou talvez não, tal episódio irá, logo a seguir, desencadear uma acção radical e definitiva da sua parte.

Pai Torcido no Connecticut
Mary Jane visita Eloise, uma mulher um pouco frustrada com o seu casamento e que não cessa de recordar um antigo namorado, Walt, que faleceu acidentalmente na guerra, e que, embora tivesse um comportamento um pouco ortodoxo, surpreendia-a pela originalidade do comportamento afectivo que tinha com esta. A sua filha Ramona é uma criança de carácter estranho e que mantém um amigo imaginário que sempre a acompanha, inclusivamente mantendo um espaço para ele na sua cama. No meio de todo este ambiente adverso e estranho, ir-se-á descobrir aquilo que mantém Eloise interessada na vida.

Pouco Antes da Guerra com os Esquimós
Ginnie e Selena, duas amigas adolescentes, foram jogar a sua partida de ténis semanal, e, no final, como Ginnie estava farta de ser sempre ela a pagar o táxi, foram a casa de Selena para receber o dinheiro em dívida. Surge o irmão de Selena, Franklin, um tipo estranho com conversas realmente estranhas, mas que, sem que Ginnie se tivesse apercebido no momento, irá despertar o seu interesse.

O Homem-Gargalhada
Duas histórias numa só, narrada por um míudo, do Chefe que conduz um grupo de miúdos (ao qual o narrador pertence) para jogos de baseball no Central Park, contando um episódio do Homem-Gargalhada ao fim de cada jogo, e a história do próprio Homem-Gargalhada, que acaba por ser influenciada pela relação que o Chefe tem com os miúdos e em particular com a namorada mistério que surgiu e sumiu da sua vida num curto espaço de tempo.
No desenrolar da história do Homem-Gargalhada, é tocante a simultaneidade de actos de grande violência com manifestações de amor inocente e infantil, no sentido mais puro e belo do termo.

Em Baixo no Bote
Boo Boo Tannenbaum e a conversa com o seu filho Lionel, um miúdo de tenra idade com o seu próprio universo imaginário, no bote onde não autoriza a sua mãe a entrar, seduzido e finalmente cativado numa conversa comovente que transporta o encanto do mundo da imaginação para o da realidade, numa cumplicidade familiar que constitui a base de todos os relacionamentos felizes.

Para Esmé - Com Amor e Sordidez
Um soldado americano, de passagem por Inglaterra para futuro embarque para o Dia-D, trava conhecimento com Esmé, em uma única conversa num café, após ter reparado nela numa actuação do coro de uma igreja umas horas antes. Fica bastante seduzido pela originalidade do seu pensamento, pela sua declarada falta de sentido de humor, pelo calor da sua conversa desinteressada e pelo incentivo na escrita de um conto por ele. Uns meses depois, a guerra reduz o soldado escritor a uma amostra de si próprio, desinteressado de tudo e de todos, mas uma simples carta, sem quaisquer intenções de maior, vai mostrar-lhe o caminho de volta.

Linda Boca e Verdes Meus Olhos
Arhtur queixa-se da esposa ao seu amigo Lee, por telefone, dizendo que Joannie nunca mais chega a casa e de que é uma estouvada, sob a qual não tem qualquer controle, com inúmeras conjecturas da sua volúpia com outros homens. Lee está em casa com uma mulher ao lado, pelo que responde e conversa de uma forma comprometedora, acalmando o amigo o melhor possível. A aparência de finalidade de todo este cenário culminará num desenlace que provará como é fácil uma pessoa enganar-se com conclusões precipitadas, e muitas vezes vindas de quem menos parecia que se iria enganar.

A Fase Azul de Daumier-Smith
Vulgarmente falando, a vida dá muitas voltas e esta ensina-nos, pela própria experiência de vida, aquilo a que já assistimos aos outros mas que não interiorizámos em nós próprios. O narrador, sob o pseudónimo de Daumier-Smith, entra como monitor numa escola de pintura por correspondência, onde, em virtude de um altruísmo apaixonado, quer tentar mudar para melhor, na sua perspectiva, a vida ou carreira dos seus alunos, ovacionando uns, e mostrando a realidade crua e dura a outros, e, por ambos os caminhos chegará o resultado sob a forma de uma lição que o amadurecerá para toda a vida: nunca se deve tirar a ilusão às pessoas, nem encaminhá-la de uma forma que estas não queiram. Cada pessoa é dona das suas ilusões, e a melhor forma de contribuirmos para a sua felicidade é dar suporte imparcial às mesmas, a vida se encarregará do resto.

Teddy
Numa viagem de barco da Europa para os Estados Unidos, encontra-se a família de Teddy, rapaz de 10 anos aparentemente sobredotado mas também possuidor de faculdades mentais e espirituais que o tornam um caso de estudo por todo o mundo. Num diálogo deslumbrante, tido entre este e um homem de 30 anos que conhece e se interessa pelo seu caso, Teddy disserta sobre a futilidade e perenidade de todas as bases e valores de toda a humanidade, sob a perspectiva de um espírito imortal que tem presente as suas existências passadas e conhece as existências passadas, presentes, e aparentemente futuras, das outras pessoas. Uma surpreendente e aterradora tese sobre os alicerces de toda a sociedade, e quanto errados estamos todos nós na postura completamente material e extremamente redutora da nossa maneira de viver.

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