Alberto Caeiro
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Portugal
n. 16 Abr 1889
Poeta

116 Poemas

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Não Tenho Pressa (1)

Não tenho pressa. Pressa de quê?/ Não têm pressa o sol e a lua: estão certos./ Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,/ Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra./ Não; não sei ...

Quando Vier a Primavera (2)

Quando vier a Primavera,/ Se eu já estiver morto,/ As flores florirão da mesma maneira/ E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada./ A realidade não precisa de mim./ / Sinto uma ale...

Agora que Sinto Amor (3)

Agora que sinto amor/ Tenho interesse no que cheira./ Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro./ Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova./ Sei bem que elas cheirava...

A Espantosa Realidade das Cousas (4)

A espantosa realidade das cousas/ É a minha descoberta de todos os dias./ Cada cousa é o que é,/ E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,/ E quanto isso me basta./ / Basta existir para se...

Eu não Quero o Presente, Quero a Realidade (5)

Vive, dizes, no presente,/ Vive só no presente./ / Mas eu não quero o presente, quero a realidade;/ Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede./ / O que é o presente?/ É uma cousa relativa ...

Não me Importo com as Rimas (6)

Não me importo com as rimas. Raras vezes/ Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra./ Penso e escrevo como as flores têm cor/ Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me/ Porque me falta a ...

Hoje de Manhã Saí Muito Cedo (7)

Hoje de manhã saí muito cedo,/ Por ter acordado ainda mais cedo/ E não ter nada que quisesse fazer.../ / Não sabia por caminho tomar/ Mas o vento soprava forte, varria para um lado,/ E segui o caminh...

Sentes, Pensas e Sabes que Pensas e Sentes (8)

Dizes-me: tu és mais alguma cousa/ Que uma pedra ou uma planta./ Dizes-me: sentes, pensas e sabes/ Que pensas e sentes./ Então as pedras escrevem versos?/ Então as plantas têm idéias sobre o mundo?/ ...

Eu Sou do Tamanho do que Vejo (9)

Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo.../ Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer/ Porque eu sou do tamanho do que vejo/ E não, do tamanho da minha altur...

Há Metafísica Bastante em não Pensar em Nada (10)

Há metafísica bastante em não pensar em nada./ / O que penso eu do mundo?/ Sei lá o que penso do mundo!/ Se eu adoecesse pensaria nisso./ / Que idéia tenho eu das cousas?/ Que opinião tenho sobre as ...

A Mentira Está em Ti (11)

Olá, guardador de rebanhos,/ Aí à beira da estrada,/ Que te diz o vento que passa? / / Que é vento, e que passa,/ E que já passou antes,/ E que passará depois./ E a ti o que te diz? / / Muita cous...

A Tua Beleza para Mim Está em Existires (12)

Última estrela a desaparecer antes do dia,/ Pouso no teu trêmulo azular branco os meus olhos calmos,/ E vejo-te independentemente de mim;/ Alegre pelo critério (?) que tenho em Poder ver-te/ Sem est...

É Preciso Também não Ter Filosofia Nenhuma (13)

Não basta abrir a janela/ Para ver os campos e o rio./ Não é bastante não ser cego/ Para ver as árvores e as flores./ É preciso também não ter filosofia nenhuma./ Com filosofia não há árvores: há idé...

Um Dia de Chuva (14)

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol./ Ambos existem; cada um como é./ / Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos / Heterónimo de Fernando Pessoa...

Se Eu Pudesse Trincar a Terra Toda (15)

Se eu pudesse trincar a terra toda/ E sentir-lhe um paladar,/ Seria mais feliz um momento .../ Mas eu nem sempre quero ser feliz./ É preciso ser de vez em quando infeliz/ Para se poder ser natural......

Para Além da Curva da Estrada (16)

Para além da curva da estrada/ Talvez haja um poço, e talvez um castelo,/ E talvez apenas a continuação da estrada./ Não sei nem pergunto./ Enquanto vou na estrada antes da curva/ Só olho para a estr...

Quando Eu não te Tinha (17)

Quando eu não te tinha/ Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo./ Agora amo a Natureza/ Como um monge calmo à Virgem Maria,/ Religiosamente, a meu modo, como dantes,/ Mas de outra maneira mais ...

Dizem que em cada Coisa uma Coisa Oculta Mora (18)

Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora./ Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,/ Que mora nela./ / Mas eu, com consciência e sensações e pensamento,/ Serei como uma coisa?/ Que há a mais ...

Quando Está Frio no Tempo do Frio (19)

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,/ Porque para o meu ser adequado à existência das cousas/ O natural é o agradável só por ser natural./ / Aceito as dificuldad...

A Noite É Muito Escura (20)

É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância/ Brilha a luz duma janela./ Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça./ É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que n...
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A Cozinha do Escritor

Aquilo que eu mais amo na escrita é o devaneio que a precede. A escrita em si, não, não é muito agradável. Deve-se materializar o sonho na página, assim que se saia do devaneio. Às vezes penso, como ...

Crónica de Natal

Todos os anos, por esta altura, quando me pedem que escreva alguma coisa sobre o Natal, reajo de mau modo. «Outra vez, uma história de Natal! Que chatice!» — digo. As pessoas ficam muito chocadas qua...
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