João de Deus

Portugal
8 Mar 1830 // 11 Jan 1896
Poeta/Pedagogo

38 Poemas

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Beijo (1)

Beijo na face/ Pede-se e dá-se:/ Dá?/ Que custa um beijo?/ Não tenha pejo:/ Vá!/ / Um beijo é culpa,/ Que se desculpa:/ Dá?/ A borboleta/ Beija a violeta:/ ...

O Dinheiro (2)

O dinheiro é tão bonito,/ Tão bonito, o maganão!/ Tem tanta graça, o maldito,/ Tem tanto chiste, o ladrão!/ O falar, fala de um modo.../ Todo ele, aquele todo.../ E elas acham-no tão guapo!/ Velhinha...

Mãe e Filho (3)

Primícias do meu amor!/ Meu filhinho do meu seio/ Tenro fruto que à luz veio/ Como à luz da aurora a flor!/ / Na tua face inocente,/ De teu pai a face beijo,/ E em teus olhos, filho, vejo/ Como Deus ...

Melancolia (4)

Oh dôce luz! oh lua!/ Que luz suave a tua,/ E como se insinua/ Em alma que fluctua/ De engano em desengano!/ Oh creação sublime!/ A tua luz reprime/ As tentações do crime,/ E á dôr que nos opprime...

A Caridade (5)

Eu podia falar todas as línguas/ Dos homens e dos anjos;/ Logo que não tivesse caridade,/ Já não passava de um metal que tine,/ De um sino vão que soa./ / Podia ter o dom ...

Hino de Amor (6)

Andava um dia/ Em pequenino/ Nos arredores/ De Nazaré,/ Em companhia/ De São José,/ O bom Jesus,/ O Deus Menino./ / Eis senão quando/ Vê num silvado/ Andar piando/ Arrepiado/ E esvoaçando/ Um rouxino...

Amo-te Muito, Muito! (7)

Amo-te muito, muito!/ Reluz-me o paraíso/ Num teu olhar fortuito,/ Num teu fugaz sorriso!/ / Quando em silêncio finges/ Que um beijo foi furtado/ E o rosto desmaiado/ De cor-de-rosa tinges,/ / Dir-se...

Saudade (8)

Tu és o cálix;/ Eu, o orvalho!/ Se me não vales,/ Eu o que valho?/ / Eu se em ti caio/ E me acolheste/ Torno-me um raio/ De luz celeste!/ / Tu és o collo/ Onde me embalo,/ E acho consolo,/ Mimo e reg...

Perdão! (9)

Seria o beijo/ Que te pedi,/ Dize, a razão/ (outra não vejo)/ Por que perdi/ Tanta afeição?/ Fiz mal, confesso;/ Mas esse excesso,/ Se o cometi,/ Foi por paixão,/ Sim, por amor/ De quem?... de ti!/ /...

Primeiro Amor (10)

Ó Mãe... de minha mãe!/ Explica-me o segredo/ Que eu mesmo a Deus sem medo/ Não ia confessar:/ Aquele seu olhar/ Persegue-me, e receio,/ Pressinto no meu seio/ Ergue-se-me outro altar!/ / Eu em o ven...

Amor (11)

Não vês como eu sigo/ Teus passos, não vês?/ O cão do mendigo/ Não é mais amigo/ Do dono talvez!/ / Ao pé de uma fonte/ No fundo de um vale,/ No alto de um monte/ Do vasto horizonte,/ Sem ti estou ma...

Avarento (12)

Puxando um avarento de um pataco/ Para pagar a tampa de um buraco/ Que tinha já nas abas do casaco,/ Levanta os olhos, vê o céu opaco,/ Revira-os fulo e dá com um macaco/ Defronte, numa loja de tabac...

Amores, Amores (13)

Não sou eu tão tola/ Que caia em casar;/ Mulher não é rola/ Que tenha um só par:/ Eu tenho um moreno,/ Tenho um de outra cor,/ Tenho um mais pequeno,/ Tenho outro maior./ / Que mal faz um beijo,...

Amigo Velho (14)

(A Martins de Carvalho num dia dos seus anos)/ / Uma vez encontrámo-nos os dois/ Nesse mar da política; depois,/ Como diversa bússola nos guia,/ Cada qual foi seu rumo: todavia,/ Em certas almas nunc...

Escreve! (15)

Não sei o que supor/ Do teu silêncio. Escreve!/ Quem é amado deve/ Ser grato ao menos, flor!/ / Se eu fosse tão feliz/ Que te falasse um dia,/ De viva voz diria/ Mais do que a carta diz./ / Mas olha,...

Sol do Meu Dia (16)

Se eu fosse nuvem tinha imensa mágoa/ Não te servindo de asas maternais/ Que te pudessem abrigar da água/ Que chovesse das mais!/ / E sendo eu onda, tinha mágoa suma/ Não te podendo a ti,...

Anseio (17)

Oh, quem me dera embalado/ Nesse berço vaporoso,/ Nuvens do céu azulado.../ Onde os meus olhos repouso/ Já de tanto olhar cansado!/ / De tanto olhar à procura/ De um bem que o fosse deveras;/ De uma ...

Attracção (18)

Meus olhos sempre inquietos/ Que posso até dizer,/ Só acham n'alma objectos/ Que os possam entreter;/ / Meus olhos... coisa rara!/ Porque hão de em ti parar/ Como a corrente pára/ Em encontrando ...

Paixão (19)

Supõe que de uma praia, rocha ou monte,/ Com essa vista embaciada e turva/ Que dá aos olhos entranhável dor,/ Tinhas podido ver transpor a curva/ Pouco a pouco do líquido horizonte/ A barca saudosa q...

Noite de Amores (20)

Mimosa noite de amores,/ Mimoso leito de flores,/ Mimosos, lânguidos ais!/ Vergôntea débil ainda,/ Tremia! Lua tão linda,/ Lembra-me ainda... Jamais!/ / Aquela dália mimosa,/ Aquele botão de rosa/ Do...
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